As principais doenças causadas pelo mergulho

À prática de mergulho, quer seja de forma assídua ou esporádica, ou numa vertente mais profissional ou de lazer, pode estar associado um conjunto de doenças muito específicas, estando a sua maioria diretamente relacionada com as diferenças de pressão barométrica verificadas dentro e fora de água.  

O cumprimento de todas as normas de segurança e seguimento das instruções dadas pelos monitores ou orientadores do mergulho minimiza o risco de surgimento de doenças e lesões relacionadas com esta atividade, embora este aparecimento também possa estar ligado a fatores climatéricos e com a predisposição individual do mergulhador, entre outros.

De entre as doenças habitualmente relacionadas com a prática de mergulho, algumas vão assumir um particular destaque, quer pela sua gravidade, quer pela sua maior frequência. Assim, é pertinente referir:

Barotrauma pulmonar

Trata-se de uma lesão a nível pulmonar, causada por diferenças bruscas na pressão barométrica. Este tipo de lesão ocorre quando a pressão externa dos pulmões se torna muito superior à pressão interna, o que se traduz primeiramente numa sensação de desconforto torácico, podendo evoluir até uma dor torácica intensa. Em casos mais graves, pode mesmo ocorrer lesão do tecido pulmonar, com potencial evolução para uma situação de pneumotórax (acumulação de ar no espaço pleural, que provoca compressão pulmonar e consequente dificuldade respiratória) ou embolia arterial (entrada de pequenas bolhas de ar na circulação sanguínea, com consequente comprometimento da função circulatória em todo o organismo).

Os principais fatores capazes de desencadear este tipo de barotrauma são uma subida rápida, sem respirar de forma adequada, ou a aspiração de água durante o mergulho. Este é o segundo tipo de doença mais comum associada ao mergulho, sobretudo quando praticado a nível amador.

Não mergulhar quando se apresenta alguma congestão nasal ou patologia pulmonar prévia, bem como subir de forma lenta e respirar de forma calma e plena, são fulcrais para a prevenção deste tipo de doença. Depois de instalada, requer habitualmente tratamento médico, com recurso a oxigenioterapia, medicação analgésica e antibiótica e, em casos mais graves, descompressão de pneumotórax através da introdução de um dreno no pulmão.

Barotrauma do ouvido

O barotrauma do ouvido pode ocorrer sempre que a pressão do interior do ouvido e a pressão externa estiverem em desequilíbrio. Durante o mergulho, há um aumento da pressão exterior, que faz compressão sobre o tímpano, empurrando-o para dentro e provocando dor. Há manobras específicas que o mergulhador pode facilmente executar e que facilitam o equilíbrio desta pressão (fazer movimentos de deglutição, por exemplo); caso não o faça, corre o risco de o tímpano romper, permitindo a entrada de água no ouvido interno e aumentando o risco de infeção ou outras lesões.

A sensação de desconforto no ouvido associada a estas variações de pressão tem uma duração variada, podendo permanecer por algumas horas, dias ou até semanas. Se a dor for muito intensa, de longa durabilidade ou associada a outros sintomas como tonturas, vómitos, vertigens, etc., deve ser procurado um médico. Medicação antibiótica, analgésica e anti-emética estão na primeira linha de tratamento desta patologia.

Barotrauma sinusal

O barotrauma sinusal ocorre quando a pressão dos seios nasais e a pressão exterior estão em desequilíbrio. A causa mais frequente para este tipo de trauma é quando há um entupimento prévio dos seios nasais, por alguma patologia do foro respiratório (constipação, congestão nasal), por alguma especificidade anatómica congénita (desvio do septo nasal) ou por algum processo traumático. O barotrauma sinusal manifesta-se habitualmente por uma sensação de peso na face e região frontal, cefaleia e epistáxis (sangramento pelo nariz). O tratamento é médico, com recurso a medicação analgésica e descongestionante.

Barotrauma dentário

Este tipo de trauma acontece apenas em caso de existência prévia de dentes cariados ou já tratados, mas sem uma colocação correta das massas dentárias, e é provocado pela entrada de pequenas bolhas de ar para o interior das cavidades dentárias. É de gravidade reduzida, provocando apenas uma dor intensa no local do dente que, por norma, pode ser aliviado com um analgésico. Cuidados dentários adequados são essenciais para a prevenção deste tipo de trauma. Caso aconteça uma incidência deste género, deve procurar-se um dentista, que observará o local afetado e recomendará o tratamento adequado.

Barotrauma facial/cutâneo

O barotrauma facial e/ou cutâneo ocorre quando a pressão do equipamento de mergulho (máscara e fato) e a pressão exterior estão em desequilíbrio. Relativamente à máscara, este desequilíbrio pode fazer com que ela se transforme numa espécie de ventosa, sugando os tecidos da face e podendo provocar lesões de gravidade moderada. Já no que diz respeito aos fatos de mergulho, um fato mal ajustado ou com tamanho inadequado pode fazer com que se formem pequenas bolhas de ar entre o tecido e a pele, originando pequenas equimoses locais. O uso de equipamento adequado à prática de mergulho e de um tamanho adequado a cada utilizador, bem como o correto ajuste da máscara e fato no início da atividade ou sempre que seja necessário ao longo da sua prática, são fulcrais na prevenção deste tipo de lesões. Caso aconteça este tipo de trauma, deve instituir-se o tratamento médico adequado às lesões existentes.

Doença descompressiva

A doença descompressiva é causada pela formação de pequenas bolhas de nitrogénio no organismo após o mergulho, que pode entrar na corrente sanguínea e alojar-se nos tecidos. A sua gravidade está diretamente relacionada com o local onde o nitrogénio se deposita. Esta doença manifesta-se frequentemente por dores a nível osteo-articular, desconforto torácico, cefaleia, mal-estar geral. Estes sintomas surgem, em 50% dos casos, na primeira hora após o mergulho, mas também podem surgir até 6 horas após o término da atividade. A sua incidência tem relação direta com a profundidade a que foi efetuado o mergulho; é essencial respeitar as tabelas de mergulho e as suas especificidades para evitar ou minorar a sua ocorrência e gravidade. Em caso de instalação, é habitualmente necessário o recurso a oxigenioterapia, bem como medicação analgésica e antibiótica.

Cólica dos mergulhadores

A cólica dos mergulhadores traduz-se numa dor abdominal intensa, normalmente intermitente, em relação direta com os gases presentes no intestino do mergulhador. Com efeito, quando há uma existência prévia de uma grande quantidade de gás no intestino, as oscilações de pressão fazem com que esse volume aumente, provocando dor. Evitar alimentos de fermentação fácil, café e bebidas gaseificadas nos dias que antecedem o mergulho é a melhor forma de prevenir esta patologia.

Hipotermia

A hipotermia é classificada como uma diminuição acentuada na temperatura corporal, podendo baixar até limites não compatíveis com a vida. À medida que aumenta a profundidade, maior é a diferença entre a temperatura da água e do corpo humano. O uso de roupa adequada à prática de mergulho pode ser o suficiente para evitar ou minorar o risco de hipotermia. Dependendo da sua gravidade, o tratamento pode ir desde o simples aquecimento corporal até à necessidade de administração de soros aquecidos. Medicação analgésica também é considerada.

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